
Gn 22,1-19 – rodapé da Bíblia Ave Maria
Os vv.1-18 Narram o momento no qual Abraão recebe a ordem divina de sacrificar seu único filho para oferecê-lo a seu Deus. O centro do relato não é a ordem de Deus, nem a atitude obediente de Abraão. O ponto culminante da narração está na ordem divina de não tocar o menino (v.12). Abraão assim se conscientiza de que está diante de um Deus da vida, que não quer nem exige sacrifícios humanos. A interpretação literal desta passagem levou a conclusões teológicas contrárias à autentica imagem do Deus bíblico cuja preocupação fundamental é a vida e exige de seus seguidores que a respeitem. Convém, antes, interpretar o texto como um progresso evolutivo da consciência religiosa de Abraão – e, definitivamente, da do povo – para o reconhecimento e a fé em uma divindade radicalmente distinta das que eram adoradas do contexto geográfico dos antepassados de Israel. É verdade que o texto nos afirma que Deus ordenou a Abraão: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai a terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar” (v.2). Contudo, é necessário recordar que no processo da evolução da consciência religiosa – evolução que nem sempre é ascendente – o crente assume como vontade divina, como Palavra de Deus, o que ele acredita lhe ser mandado ou ordenado pela divindade ou oferecido por sua própria vontade à divindade, procurando agradá-la. Abraão – a consciência do povo – participa de um ambiente religioso no qual se realizam sacrifícios humanos e daí a tentação de Abraão de fazer outro tanto – tentação na qual cai certamente Israel, cf. 2Rs 3,27; 16,3; 17,17. A tradição nos ensinou, e infelizmente se aceitou de uma forma tão crítica, que esta passagem é a “tentação de Abraão por Deus” ou que “Deus coloca a prova Abraão”. Aprendemos, implicitamente, em um Deus injusto e charlatão, que brinca com a fé e os sentimentos de seus fiéis, o que é uma barbaridade teológica inadmissível sob todos os pontos de vista. Pensando neste texto e na interpretação que a própria Escritura dá ao episódio (cf, Hb 11,17-19), aceitamos ingenuamente que Deus também nos coloca à prova em muitas ocasiões. Não, não é conveniente nem proveitoso para a nossa fé ter um conceito tão errado de Deus, porque não corresponde ao autêntico Deus, o Deus do amor, da misericórdia e da justiça. É certo que esta e muitas outras passagens arrojam certa obscuridade sobre a imagem de nosso Deus, mas isso não significa que Deus seja um ser ambíguo; assinala, na verdade, que existem muitas ambivalências na consciência humana que, no caso da Bíblia, ficam registrada como se fossem próprias de Deus. No fundo, pois, não existe tentação por parte de Deus. Existe sim tentação a Deus por parte do ser humano. Esse é o caso de Abraão e, com muita frequência, o nosso. Como ficou dito, Abraão vive em um contexto religioso, no qual, ao oferecer seu filho a Deus, também recebia um descendência numerosa e um território. Todavia, Deus lhe aparece como alguém a quem não importam os sacrifícios, e sim a vida e o compromisso com ela. Poderíamos dizer que Deus exige que Abraão se revolte contra tudo aquilo que ameaça a vida e assuma um compromisso muito mais radical em favor dela. Esse é o verdadeiro Deus bíblico, aquele que criou a vida, que está comprometido com ela e que é contra tudo aquilo que a ameaça. Nem mesmo os sacrifícios de animais interessam ou agradam a Deus. O profeta Miquéias já havia tido também na sua época esta grande revelação que por muito tempo foi interpretada superficialmente (cf.Mq 6,6-8).