Vocação de Abraão

Gn 12,1-9 – rodapé da Bíblia Ave Maria

Deus irrompe na história de um homem até agora desconhecido na Bíblia: é o protótipo da irrupção de Deus na consciência humana. Deus chama, e seu chamado coloca em movimento o escolhido. Desestabiliza-o de certa maneira. A partir desse momento, sua vida adquire uma nova dimensão. Os dados históricos das populações da região mencionados aqui indicam que os deslocamentos eram normais, já eram nômades ou seminômades. Certamente, Abraão havia feito percursos semelhantes aos narrados nesta passagem. Não obstante, o itinerário desta passagem apresenta várias novidades: 1) É realizado por ordem expressa, um chamado divino. 2) Existe um ato de obediência do sujeito. 3) O deslocamento já não é temporário, mas definitivo, toda vez que está fundamentado na promessa da doação do território, cuja propriedade exclusiva repousará na descendência numerosa prometida ao beneficiário do dom; tudo isso fundado na promessa de uma bênção perpétua, que alcançará todas as famílias da terra. 4) A presença desses estrangeiros, até agora transumantes, adquire o caráter permanente, com a construção de um altar em Siquém (v.7) ao Deus que ali lhe apareceu, e outro em Betel, onde estabeleceu seu acampamento e invocou o Senhor (8). Todos esses movimentos e iniciativas de posse do território são o argumento religioso para reclamar o direito sobre a terra, pois na mentalidade israelita tal direito está amparado por uma promessa de Deus. É claro que, se não nos afastarmos de uma leitura sob ponto vista da justiça, podemos comprovar que aqui se verifica algo que é comum a todas as religiões: qualifica-se como desejo, vontade ou mandato divino aquilo que se mostra bom, positivo ou conveniente para o grupo. O redator do texto não pensa em outra coisa. Não devemos concluir que Deus seja tão injusto a ponto de não reconhecer o direito dos moradores nativos de Canaã. É preciso duas noções para interpretar com rigor qualquer passagem bíblica: 1) para os crentes, todo texto da Escritura é, verdadeiramente, Palavra de Deus e também palavra humana, palavra que está intermediada por uma carga de circunstâncias sócio – históricas e afetivas do escritor, que não vê inconveniente em apresentar como Palavra ou como vontade de Deus o que é proveitoso e bom para seu grupo. 2) A perspectiva da justiça. Toda passagem bíblica tem de passar sempre por esses dois recursos de interpretação, visto que nos ajudam a definir até onde o texto que lemos nos revela ou nos esconde o Deus da justiça, comprometido com a vida de todos, sem distinção, esse Deus que – como vemos em Ex 3,14 – se autodefine como “Aquele que Sou”. É importante que se tenha tudo isso muito claro, porque nos relatos e nas passagens restantes dos livros há momentos em que as imagens de Deus são muito ambíguas e, portanto, muito perigosas. Uma interpretação desprevenida ou desprovida desses critérios pode confundir a fé do crente e outros podem – como já sucedeu – aproveitar essas divergências para continuar semeando a dor e a morte em nome de um deus equivocado, cuja existência não é possível admitir.

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