
Gn 6,9-8,22 – rodapé da Bíblia Ave Maria
O castigo é dirigido contra a descendência de Set, isto é, os filhos de Set, o irmão de Abel, supostamente o ramo “bom” da família humana, não portadora da maldição, e sim da benção. Caim e sua descendência foram declarados amaldiçoados por suas atitudes fratricidas. Todavia, não tem como culpados somente esses grupos de poder que não respeitam a vida, também a linhagem “boa” é responsável pelo fracasso do plano de Deus. Esse é o núcleo de toda esta passagem. Se fizermos uma leitura mais atenta desta narrativa encontramos repetições e dados difíceis de confirmar e de fundamentar. Não esqueçamos que por trás de cada detalhe existe um mundo complexo carregado de simbolismo. A narração baseia-se em um antigo mito mesopotâmico, mas adaptado aqui com uma finalidade muito distinta da original, e com causas e motivos também muito distintos. Conhecem-se mitos de inundações universais de origem suméria, acádica e assíria, mas tais versões recebem uma nova interpretação dada por Israel. O relato bíblico parece muito antigo. O especialistas buscam no texto atual a mão redacional de três das quatro grandes fontes: a javista (J), a eloísta (E) e a sacerdotal (P). Esta última (P) foi a que lhe deu forma definitiva; é a que mais deixa perceber sua influência. De novo, um relato mítico se coloca a serviço da análise crítica da história do povo, ao ilustrar sua tese sobe a absoluta responsabilidade do ser humano nos males do povo e da humanidade. Na dinâmica destes onze primeiros capítulos do Gênesis, a narração sobre o dilúvio vem a ser uma autocrítica de Israel que fracassou, “naufragou”, na sua vocação a serviço da justiça e da vida. Também Israel, como povo escolhido, deixou-se dominar pela tendência monopolizadora egoísta do ser humano afundando no fracasso. Nessa perspectiva, não é necessário, nem traria benefício para a fé, provar a veracidade histórica do dilúvio, nem a existência real de Noé e de sua arca.

Se adotarmos o ponto de vista do escritor sagrado e o contexto sócio – histórico e religioso, no qual este antigo mito adquire novos significados, a preocupação com a verificação e comprovação desse fatos é irrelevante. O leitor e o ouvinte prestavam atenção ao que o redator quis dizer, isto é, que o abandono da justiça e do compromisso com a vida traz como consequência verdadeiras catástrofes. A fé deve crescer no mesmo ritmo que nossa aposta na vida e na justiça.